O pão.come é apenas um de vários projetos em prol de uma alimentação mais saudável, levados a cabo por uma equipa da Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro, coordenada pela pela Drª Ilídia Duarte. Conheça melhor esta iniciativa à qual o Jumbo está associado desde a primeira hora.

1. Em que consiste o projeto pão.come?
Este projeto faz parte de uma estratégia de redução de sal que foi implementada na região centro, denominada minorsal.saúde. Essa estratégia tem 2 grandes projetos que são o pão.come e o sopa.come que incidem sobre as questões da redução do sal nestes alimentos.

2. Mas a motivação que deu lugar a este projeto vai bem além do problema do sal no pão, certo?
O objetivo é diminuir a incidência de doenças cardio e cérebro-vasculares na região centro. Quando iniciámos o projeto pão.come, esta região apresentava as taxas de mortalidade por AVC mais elevadas do país. Ultimamente esta tendência tem-se vindo a inverter.

3. Quais são os números do projeto que se conhecem neste momento? Existem metas quantificáveis que permitam medir o sucesso da iniciativa?
O projeto teve início em 2007. Começou com 322 padarias e neste momento já envolve cerca de 1.200 na região centro. Apresenta uma cobertura populacional de cerca de 1 milhão e 600 mil pessoas. O desejável é que o projeto seja expandido a nível nacional.

4. Quem são as entidades que o estão promover?
Em termos operacionais o projeto assenta em cerca de 150 profissionais de saúde pública, de uma equipa multidisciplinar constituída por médicos e enfermeiros, técnicos de saúde ambiental, técnicos de laboratório que procedem a toda a monitorização analítica, nutricionistas e engenheiros sanitaristas. Para a promoção do projeto temos tido também o apoio da Delegação do Centro da Fundação Portuguesa de Cardiologia, assim como da ACIP – Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares – e da Auchan Portugal Hipermercados.

5. O Jumbo tem uma parte ativa nesta iniciativa. Qual é a importância desta parceria e de que forma tem contribuído para o seu sucesso?
O Jumbo foi nosso parceiro desde a primeira hora, o que para nós é uma mais-valia sendo um agente da grande distribuição. Assumiu todo o projeto de uma forma fantástica sendo que, através do seu Programa de Alimentação Saudável, se tornou quase um embaixador deste projeto ao nível de outras regiões, o que para nós foi muito bom.

6. Não deve ser fácil convencer os fabricantes de pão a reduzir um ingrediente importante nos seus produtos, principalmente quando esse ingrediente “faz os clientes voltarem”. Como caracteriza o acolhimento desta ideia por parte das panificadoras?
Começámos por mostrar a importância do problema de saúde à ACIP para assim os motivar a incentivar essa mudança junto dos seus membros. De facto, o sal e o açúcar criam dependência nas pessoas.
No início não foi fácil porque tínhamos metas muito ambiciosas (redução de cerca de 50%) o que gerou resistência, pois havia o receio das panificadoras e outros produtores perderem clientes. Então alterámos a estratégia e implementámos uma redução ainda mais gradual do sal, pois quando assim é as nossas papilas gustativas não sentem a diferença.

7. Quais são os principais riscos e sintomas associados ao consumo excessivo de sal?
A doença mais prevalente associada ao consumo excessivo do sal é a hipertensão, que é uma doença silenciosa. Mas há vários outros riscos como os AVC, doença cardíaca, enfarte do miocárdio, doença renal crónica e vários tipos de cancro nomeadamente o cancro gástrico, podendo ainda de alguma forma estar igualmente associado à osteoporose. A má alimentação, de uma forma geral, o excesso de peso e a falta de atividade física são segundo a OMS, responsáveis por 8 em cada 10 mortes na Europa.

8. Portugal é dos países europeus em que existe maior relação entre os AVC e a ingestão de sal. Há alguma razão para este fenómeno?
Seria preciso comparar o nosso perfil alimentar com o dos outros países. Embora sem uma resposta concreta para esse fenómeno, poderemos inferir que o consumo de sal em excesso a partir de idades muito precoces poderá ser determinante para esse facto.

Foram efetuados estudos que mostraram erros alimentares graves nas crianças portuguesas. No estudo EPACI realizado nas crianças dos 12 aos 36 meses de idade, verificou-se que 87% consomem elevadas quantidades de sal (acima do recomendável para o seu escalão etário) e aos 4 anos no estudo Geração XXI, 90% das crianças já ingerem sal acima do valor máximo diário.

9. A nossa alimentação é menos saudável que a de, por exemplo, outros países mediterrâneos?
A maior prevalência de obesidade nos países europeus é precisamente nos países mediterrâneos, países que teoricamente têm as melhores condições em termos de recursos naturais para uma boa alimentação mas que, aparentemente, cometem erros alimentares (de inadequação e de excesso) de forma sistemática.

10. O consumo excessivo de sal pelas crianças e jovens é igualmente nocivo. Que medidas se podem tomar para “educar” para a escolha no futuro e intervir no aconselhamento formativo dos encarregados de educação?
Estamos a iniciar um eixo de literacia em saúde principalmente para as crianças, com materiais lúdicos e simultaneamente pedagógicos.  Acreditamos também que os pais podem aprender através dos filhos.É uma forma de passar a mensagem para dentro das casas dos portugueses.

11. As novas gerações estão mais sensibilizadas para estas questões?
Depende do escalão etário. Os mais novos ainda não estão e vamos atuar precisamente aí porque sabemos que, quanto mais novos, maior é a recetividade das mensagens. Os exemplos da reciclagem e do tabagismo são bons. São as crianças que levam as mensagens aos pais: “Pai/mãe, não faças isso”.

Os adolescentes já têm outra abordagem. Eles têm o conhecimento mas têm alguma dificuldade em alterar comportamentos. Por isso precisamos do apoio dos técnicos da área da psicologia comportamental, para nos ajudar a criar estratégias de comunicação que permitam fazer a diferença nesses escalões etários. Dizer apenas “isto faz mal” não é suficiente. Eles preferem viver o momento do que equacionar o que será o futuro.

12. O pão é apenas um dos alimentos em que podemos eliminar o sal. De que outras formas é possível reduzir o consumo de sal na nossa cozinha e nas nossas receitas?
Dizem que a gastronomia é a identidade de um povo e essa identidade pode ser vista no seio da família, ou no meio de um espaço geo-demográfico (uma vila ou uma região com as suas receitas típicas). Mas não perdendo essa identidade é possível melhorar muito em termos nutricionais e tornar as pessoas mais saudáveis. E acima de tudo não reduzir o número de anos de vida com qualidade.

Por exemplo, o uso das ervas aromáticas é fantástico como substituto do sal. Nas compras é importante a atenção aos rótulos dos produtos e escolher os produtos que têm menos sal.

Na cozinha não devemos salgar primeiro e provar depois mas sim o contrário, porque alguns alimentos, pelas suas características, já aromatizam e intensificam o sabor, nomeadamente em cozidos e guisados. Já não tanto no que se refere a fritos e assados.

As ervas aromáticas devem ser preferencialmente frescas. E devemos utilizar muitos vegetais pois são ricos em potássio, que funciona quase como uma “balança”. Ao aumentarmos o potássio diminuímos o sódio.

13. E será que isso é suficiente para manter o coração saudável e o risco de AVC reduzido ao mínimo? O que mais deve ser feito a nível individual? O exercício?
É indissociável. A alimentação e a atividade física tem de estar intimamente ligadas. Devemos ter sempre presente que não podemos ter uma vida sedentária e devemos praticar algum tipo de exercício, nem que seja caminhar pelo menos meia hora por dia.

Por outro lado, a alimentação (mesmo o momento da confeção) deve ser visto como um momento de prazer.

14. A ARS da Região Centro tem desenvolvido outras iniciativas no âmbito da promoção de uma alimentação saudável, como são por exemplo os programas Oleovitae e Aguarela Alimentar. Pode explicar brevemente em que consistem?
O “Oleavitae” é um projeto de monitorização dos compostos polares nos óleos de fritura (substâncias potencialmente cancerígenas). Estes compostos surgem devido à utilização do óleo de fritura de uma forma inadequada, prolongada e a elevadas temperaturas. O projeto tem uma vertente de aconselhamento nutricional para a área da restauração, tem a componente da monitorização feita pelos nossos técnicos, e tem a parte ambiental, em que as pessoas são aconselhadas a eliminar corretamente esses óleos.

Para uma alimentação equilibrada, quanto maior for a palete de cores no nosso prato, melhor (desde que não sejam corantes). O “Aguarela Alimentar” surge dessa ideia. É um projeto de formação dirigido aos profissionais de saúde, para os habilitar a abordar as questões da nutrição e harmonizar a linguagem com a dos nutricionistas, sem ter a pretensão de os substituir, pois são fundamentais.

Dr.ª Ilídia Duarte – O combate ao excesso de sal