Filipe Cameirinha Ramos, embaixador do Movimento 2020, é licenciado em gestão de empresas e está na origem do projeto agrícola da Herdade da Figueirinha. Envolvido desde o lançamento da “primeira pedra”, criou uma equipa jovem que aposta na produção de vinho e azeite regional de elevada qualidade e com reconhecimento internacional.

1. É comum ouvir-se “Somos aquilo que comemos”. Concorda? É assim com os portugueses?
Somos mesmo o que comemos! A nossa alimentação influencia corpo e espírito. A prática de uma alimentação saudável faz-nos sentir bem.
Penso que progressivamente temos mais preocupações com a alimentação. Há uns anos ninguém media nada, hoje as pessoas preocupam-se mais.
Acho que estamos a caminhar no bom sentido. Desde que sou embaixador do Movimento 2020 também estou mais desperto para estes temas e tento ter mais cuidado com a alimentação.

2. A produção agrícola em Portugal está a atravessar uma boa fase ou nem por isso?
A produção agrícola em Portugal está a correr muito bem. No Alentejo, o Alqueva veio revolucionar por completo a agricultura. Os solos melhoraram, o “know how” dos produtores agrícolas e a inovação tecnológica tornaram-nos dos melhores do mundo.
Temos uma região com condições ideais para produzir e atingimos índices médios de produção muito elevados. Somos campeões! Para além do vinho e do azeite que são 85% para exportação, na Herdade do Monte Novo e Figueirinha também produzimos papoila, milho e estou a pensar cultivar brócolos depois da colheita do milho. Temos 170 hectares de olival, 82 de vinha, um lagar e uma adega e uma ótima dinâmica.

3. Diria que aproveitamos os recursos agrícolas que temos da melhor maneira na nossa dieta?
Nos casos da produção de vinho e azeite em Portugal, apesar de se ter vindo a apostar na exportação, a produção para o mercado interno é excedentária porque ainda se consomem muitos produtos que não são portugueses. Não valorizamos o suficiente o produto nacional, e isso verifica-se no azeite em que ainda há muito consumo de azeite espanhol sem informação da origem para o consumidor português. A produção de azeite em Portugal é pequena à escala mundial apesar de estar e crescer mas por isso mesmo a aposta deve ser na qualidade. Acho que devíamos ser mais protecionistas em relação ao produto nacional, estamos no bom caminho mas há muita falta de coragem política.

4. Pessoalmente está mais ligado aos setores da produção de azeite e de vinho. São 2 produtos com enorme tradição na mesa dos portugueses. A qualidade destes nossos produtos fica a dever alguma coisa aos concorrentes estrangeiros?
No vinho a valorização do produto nacional é maior. O consumidor sabe que um vinho regional passou por um crivo de profissionais antes de chegar à sua mesa. Na Herdade da Figueirinha produzimos atualmente cerca de 700.000 garrafas por ano de tinto, branco e rosé: Amnésia (premiado com a grande medalha de ouro Concurso Mundial de Bruxelas), Herdade da Figueirinha e o Fonte Mouro são algumas das nossas marcas, na maioria para exportação. A nossa estratégia não é preço, é qualidade. Não somos grandes mas somos bons.
O consumo de vinho está mais moderado por questões de saúde alimentar, mas tenho a perceção de que está a voltar à mesa dos portugueses, incluindo dos mais jovens.

5. Como se escolhe um bom azeite para cozinhar, para temperar?
Seja para cozinhar ou temperar, o azeite deve ser sempre extra virgem e ter uma acidez o mais baixo possível. Existem diferentes variedades de azeite, sendo que parte dessas variedades é constituída por uma mistura de azeite refinado e azeite virgem com níveis de acidez mais elevados.
Na nossa herdade conseguimos colheitas de 7000 toneladas de azeitona com 0,2% de acidez média.

6. Como classifica o nível de informação da população no que respeita aos hábitos alimentares? Num mundo em que as fontes de informação e as formas de comunicar/comunicação se multiplicam todos os dias, não deveríamos estar melhor informados?
Não é uma questão de falta de informação até porque a informação é muita. Por vezes até excessiva. O problema está em que os consumidores muitas vezes não sabem como interpretar os rótulos para uma utilização adequada dos produtos. Falta muita educação alimentar nesse sentido.

7. São 20 os desafios a que o movimento 2020 se propõe. Quais diria que são os 2 ou 3 mais urgentes?
A participação cívica é importante e foi por isso que aceitei o convite do Movimento 2020 para ser embaixador. Penso que os 20 desafios do Movimento 2020 são muito relevantes, em particular a hidratação, a redução do consumo do sal e o regresso à dieta mediterrânea. São 3 pontos que considero prioritários. Penso que posso contribuir com mais informação sobre as agro-indústrias e os seus produtos e sobretudo sensibilizar as pessoas para uma alimentação mais equilibrada.

8. O desperdício alimentar é um tema que vai tendo cada vez mais atenção. O que considera que pode ser feito para reduzir o desperdício alimentar?
Um dos outros pontos importantes do movimento 2020 é a luta contra o desperdício. Na nossa produção temos desperdício 0.
No caso do vinho, as borras e os bagaços são usados para a indústria da destilação e as águas das lavagens são aproveitadas para rega.
No azeite, as ramas e folhas são trituradas e espalhadas na terra, o bagaço, é usado para fazer biomassa, e os caroços são para combustível.

9. Em sua casa põe em prática alguma estratégia que possa servir de bom exemplo a quem nos lê?
Atualmente a minha casa na Herdade dispõe de uma caldeira para aquecimento central a água no inverno, na qual já só uso caroços de azeitona como combustível. A poupança foi considerável. Estamos a pensar implementar o mesmo sistema no nosso Hotel em Beja.

10. Acha que a produção agrícola nacional pode ser uma resposta a este problema?
Temos produtos portugueses de excelência. Ser pequeno não é uma barreira, é apenas um incentivo para sermos sempre melhores.

Filipe Cameirinha Ramos: um exemplo de confiança nos produtos nacionais