Geisa é vegetariana e praticante de Trail. A autora do blog “Ela e a Marmita” tem também um lema: “no excuses”. A desculpa perfeita para conversarmos com ela e saber mais sobre as suas estratégias para um dia-a-dia cheio de saúde.

1. Na sua página de Facebook (Ela e a Marmita) diz que é uma “vegetariana em construção”. O vegetarianismo é um processo?
Quando iniciei o processo de mudança dos meus hábitos alimentares, comecei por eliminar a carne. Foi uma resolução do novo ano 2013. Sempre gostei da filosofia vegetariana, e tentei informar-me o melhor possível junto de amigos e pesquisei também informação mais técnica. No 1º ano comecei a comer mais peixe e leguminosas e não senti nenhuma necessidade de comer carne. Nos 2 anos seguintes eliminei o peixe e fui retirando progressivamente todos os produtos processados de origem animal. Consultei o médico de família para fazer exames durante todo o processo para me certificar de que os macronutrientes que consumia eram suficientes. O apoio da família também foi muito importante, todos aceitaram bem a minha opção. Hoje sou 100% vegetariana. Integrei na minha alimentação o tofu, o seitan, os frutos secos, a fruta, os legumes, para além do arroz e da massa que continuo a consumir.

2. É difícil manter esse tipo de alimentação? E é fácil encontrar os produtos certos?
Fazer compras de comida vegetariana é fácil. Há cada vez mais oferta e diversidade. Temos de nos focar no que é mais nutritivo e evitar os alimentos processados. Se optarmos por um alimento processado o ideal é ler bem o rótulo para perceber o que estamos a consumir. Quando vou às compras não sinto que gaste mais pelo facto de fazer opções vegetarianas. Pelo contrário. Sou bastante organizada mas ajuda sempre fazer uma lista.

3. Quando iniciou esse processo de mudança dos hábitos alimentares, já era atleta de trail?
Coincidiu com o reforço da minha atividade de trail, que passei a fazer com mais regularidade (2 a 3 treinos por semana). A atividade física também me obrigou a repensar a minha alimentação.

4. Como é que se apaixonou pelo trail e como é que concilia esta modalidade no seu dia-a-dia?
Quando era nova praticava atletismo e fui federada em orientação (corta-mato com mapa e bússola). O trail, que é na verdade “correr na natureza”, comecei mais tarde com o meu marido. Corremos em trilhos, nas montanhas, em contacto com a natureza, o que proporciona uma sensação de liberdade. O treino funciona sempre com objetivos concretos que tento superar. Mesmo com uma vida ativa é possível conciliar a rotina de trabalho diário com o treino. Na zona de Lisboa é possível treinar em Monsanto, Meco, Sintra, Arrábida, Sesimbra.

5. Qualquer pessoa pode praticar? Quais são os principais benefícios a que associa esta modalidade?
É importante estar bem preparado fisicamente e ter uma consciência corporal apurada. No meu caso faço também treino mais técnico, exercícios respiratórios, reforço muscular. E a ideia de superação dos objetivos, de resiliência, é muito importante para mim. A vantagem do trail é que os desafios são sempre diferentes, o que ajuda a motivar o treino.

6. Para uma boa performance, tem alguns cuidados específicos?
Quando faço provas de trail preparo-me sempre a vários níveis: levo equipamento adequado (ténis com tração), faço uma alimentação adaptada (reforço a hidratação, levo sempre água, barras de cereais, frutos secos) e prevenção de segurança (telemóvel durante a prova; uma manta térmica). A prova mais longa que fiz foram 70km durante 11 horas.

7. Como é que consegue atingir as suas metas? É com uma mentalidade “no excuses”? É esse o sentido deste seu lema?
O conceito de “no excuses” tem a ver com as resoluções que podemos tomar e cumprir aquilo que prometemos a nós próprios. Em primeiro lugar temos de ter um plano realista, olhar para nós e saber que vamos conseguir. Depois criar um plano de ação e respeitar o plano. Nós próprios temos de ser a nossa maior motivação. Há dias melhores e dias piores mas temos de pensar “vá lá, força!”. O cansaço está presente mas no meu caso concreto quando estou a correr sinto-me bem.

Se tivesse de aconselhar um plano de ação diria que o mais importante é:

    1.perceber o que queremos mudar em nós próprios
    2.pensar em fazer uma atividade física
    3.eliminar alguns alimentos que temos em casa
    4.procurar ajuda e aconselhamento profissional

    8. Para além dessa máxima, que dicas alimentares pode dar aos nossos leitores, de forma a que atinjam os seus objetivos? Consegue identificar as 3 mais importantes para si?
    Se tivesse de dar algumas dicas para alguém que quer começar a mudar hábitos menos saudáveis, aconselhava, num primeiro passo, cortar com o consumo de refrigerantes, consumir produtos da época e da sua região, evitar comer fora porque é mais difícil controlar o que comemos, por exemplo. Pôr a mão na massa também é importante, fazer alguns workshops para aprender a cozinhar pratos mais saudáveis. O nosso paladar tem de ser estimulado e a alimentação com muitas especiarias torna a alimentação mais atrativa. Acredito que a cozinha vegetariana é muito criativa. Mas no fundo a meta é o equilíbrio.

    9. A verdade é que os problemas ligados à alimentação continuam a existir, nalguns casos a agravarem-se. Como é que se pode chegar às pessoas de uma forma que as motive para a mudança?
    Penso que hoje existe muita informação sobre as questões da alimentação saudável, do vegetarianismo, da importância de fazer exercício físico, mas há uma necessidade de sensibilização que ainda se mantém. Para além disso é muito importante fazer demonstrações de novas receitas e dar a provar e degustar pratos vegetarianos para as pessoas tomarem contacto com novas formas de alimentação.

    10. Acha que a grande distribuição alimentar pode contribuir para esta sensibilização como o Jumbo já faz na maioria das suas lojas?
    Sim, neste ponto as marcas e a distribuição alimentar têm alguma responsabilidade. Podem contribuir com workshops culinários, comunicação clara dos produtos e dos seus benefícios, etc.

    11. A título de curiosidade, como surgiu o nome “Ela e a marmita”?
    Quando tomei esta resolução de ser vegetariana, tive de aprender a cozinhar novos pratos e incluir maior diversidade de produtos nas minhas refeições. Frequentei alguns workshops que me ajudaram muito, em particular o da Gabriela Oliveira. Para facilitar o processo também passei a levar uma marmita com o almoço para o trabalho. É daí que vem o nome do meu blog porque quando eu passava com os meus pratos vegetarianos os meus colegas diziam: “lá vai ela e a marmita!”.

    12. Em casa todos aderiram ao vegetarianismo? E as visitas, também? Como consegue gerir essa gestão?
    O meu marido não é vegetariano mas em casa aderiu às refeições vegetarianas. Os meus amigos quando vêm jantar a minha casa todos aceitam a nossa opção, muitas vezes com alguma curiosidade porque de facto os nossos pratos vegetarianos têm muita diversidade e apostam muito na diferenciação de sabores através da utilização de especiarias.

    13. Podemos lançar-lhe um desafio? Se tivesse que fazer a sua marmita o que é que incluiria?
    O que não falta no meu cesto de compras para preparar as minhas marmitas: batata-doce, manteiga de amendoim, tomate, cenouras, espinafres e agrião ou outros legumes verdes, bebidas vegetais e bananas.

    14. Acredita que uma alimentação variada é fundamental? No Jumbo procuramos oferecer aos nossos clientes a maior variedade de produtos possível.
    O Jumbo tem uma boa diversidade de especiarias e sabores do mundo o que me facilita a escolha. O avulso (leguminosas, sementes, etc.) é um grande benefício porque me permite experimentar novos pratos sem desperdício. A relação preço/qualidade também é boa. Para levar para o almoço na marmita faço muitas vezes hambúrgueres, estufados de legumes, etc.

Aqui fica também a sugestão de um deliciosa
receita vegetariana partilhada pela Geisa:

Estufado de feijoca e abóbora
com brócolos salteados

Ingredientes:

  • 1 c. de sopa de óleo de coco ou azeite;
  • 1 dente de alho picado;
  • 1 cebola pequena picada;
  • 2 tomates cortados em cubos;
  • 500g de feijão cozido;
  • 500g abóbora cortada em cubos – idealmente abóbora menina;
  • 100ml água da cozedura do feijão;
  • Temperos: 1 c. de sopa de molho de soja (sem açúcar), pimentão doce, pimenta preta moída, açafrão das índias (opcional), 1 folha de louro, coentros frescos (opcional).
  • Preparação:

    Num tacho, aquecer o óleo de coco ou azeite e refogar ligeiramente a cebola e o alho. Uso sempre o lume baixo.
    Quando a cebola já estiver transparente juntar o tomate e a abóbora. Temperar, envolver os alimento e tapar durante alguns minutos (cerca de 3 minutos).
    Posteriormente juntar água da cozedura do feijão, ou água morna. Eu opto por ir juntando ao longo do cozinhado. Depende se pretendemos mais ou menos molho.
    Juntar o feijão, corrigir os temperos e voltar a tapar. Vou verificando a textura da abóbora para não ficar muito mole.
    No final gosto de incluir coentros ou salsa picadas e sementes, como topping!
    Gosto de acompanhar com brócolos cozidos ao vapor ou salteados. Com arroz basmati também fica muito bem!

    Bom apetite! 🙂

    O Jumbo, Ela e a Marmita.