O Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia e do Instituto de Cardiologia Preventiva de Almada emprestou-nos os seus anos de experiência na luta pela prevenção e contra as doenças do coração para explicar o que devemos e não devemos fazer para viver mais e melhor.

1. O coração é, por razões óbvias, um dos órgãos mais importantes no nosso organismo. Quais são as principais regras para o manter saudável?
As doenças cardiovasculares são a primeira causa de doença em Portugal. É um problema de estilo de vida, e antes de mais um problema civilizacional. Um estilo de vida saudável é a solução para prevenir estas doenças. Existem 2 pilares para evitar esta situação: o exercício físico e a alimentação.

2. O exercício físico vai tendo papéis diferentes na manutenção da nossa saúde. Quais são as principais diferenças na função do exercício físico nas diferentes fases da vida?
Devemos todos enquanto adultos fazer exercício diariamente. Meia hora por dia é suficiente. Andar a pé a um ritmo acelerado, por exemplo, chega perfeitamente. Nas crianças este exercício deve ser de cerca de uma hora diária. Está provado que crianças que praticam desporto regularmente têm melhor capacidade cognitiva e consequentemente melhores resultados escolares.

3. Como se consegue conciliar uma agenda tão preenchida como são as de hoje, com a prática de atividade física?
Esta é uma questão que está associada à passividade e ao sedentarismo, que é muito cultural. O ócio e o repouso são percebidos como sinal de prosperidade. Até em percursos pequenos as pessoas optam por usar o carro. Em situações menos numerosas mas que já representam em Portugal cerca de 20% da população falamos de um síndrome de fragilidade, que é uma atrofia da massa muscular. No resto da Europa atinge apenas 8% da população. O sedentarismo sobretudo nas cidades leva-nos a pôr em causa a nossa saúde. A atividade física protege e compensa se tiver um carácter regular e é possível de integrar na nossa rotina diária.

4. Os hábitos alimentares também são determinantes para a saúde do coração. Quais são os maus hábitos que devemos absolutamente evitar?
O sal e o açúcar são muito nocivos e devem ser substituídos sempre que possível na confeção dos alimentos.
No que se refere às bebidas alcoólicas, devemos beber “à mediterrânea”, ou seja, 1 a 2 copos de vinho tinto ou 1 cerveja por dia, de forma regular. O consumo diário é menos prejudicial do que beber esporadicamente mas em maior quantidade.
O único elemento que deve ser totalmente eliminado é o tabaco. O tabaco está na origem da maioria das doenças respiratórias e é extremamente nocivo para a saúde cardiovascular. Os jovens fumadores com menos de 30 anos de idade são um grupo de risco sério. A nicotina gera uma dependência intensa e a OMS (Organização Mundial de Saúde) é clara: não existe um conceito de consumo moderado de tabaco. Não se deve fumar, ponto. Existem algumas cidades, duas na Europa, em que população acordou em proibir o consumo de tabaco em todos os locais. A redução de enfartes foi de 50%.

5. A dieta mediterrânea é mesmo a melhor das dietas para um coração saudável?
No que diz respeito à alimentação temos definitivamente de voltar à dieta mediterrânea: produtos da estação, hortaliças, carnes magras, peixe, usar o “ouro líquido”, o azeite para cozinhar (de preferência virgem extra).

6. A dieta para o coração dos portugueses é equilibrada? O que podemos fazer para ter hábitos alimentares mais saudáveis?

O sal e o açúcar em excesso estão na origem da maioria das doenças cardiovasculares: o açúcar é um dos elementos na origem da obesidade e o sal provoca hipertensão arterial que é a grande causadora dos AVC. Podemos sempre encontrar alternativas para evitar estes alimentos como por exemplo temperar com ervas aromáticas, usar produtos magros e sem adição de açúcar. O palato habitua-se e gosta. Não devemos proibir ou restringir totalmente mas devemos moderar. Está provado que quem come muito vive menos.

7. Diz-se que “de pequenino é que se torce o pepino” isso também é verdade para a saúde cardiovascular?
A tomada de consciência destas questões é mais frequente nas mulheres porque a inteligência emocional leva-as a ter este tipo de preocupações a longo prazo. A saúde tem de ser encarada como um investimento. Começar cedo para poder ter uma vida mais longa e mais saudável.

8. Qual é o papel da educação dos pais na prevenção e controlo destas questões?
No que se refere à alimentação existe muita indulgência por parte dos pais. Na cantina da escola pode comer-se fruta e sopa mas depois as crianças têm dinheiro para ir ao bar e comprar “snacks” menos saudáveis e refrigerantes. Os hábitos de estilo de vida saudável e alimentação equilibrada adquirem-se desde pequenino. É preciso insistir de forma progressiva. Quando adultos tendemos a gostar do que comíamos quando crianças.

9. Como é que os problemas de obesidade estão a ter impacto na saúde cardiovascular dos portugueses?
A obesidade infantil está a aumentar. Neste ponto o papel da escola é muito importante. No meu tempo havia 1 “gordo” na turma, hoje existe 1 “magro”. A esperança de vida aumentou quase 30 anos num século e pela primeira vez a nova geração pode vir a ter uma esperança de vida inferior à dos pais devido sobretudo a problemas de saúde decorrentes da obesidade.

10.Quais são os principais sinais de alerta de que o coração pode estar a falhar?
As doenças do coração são normalmente assintomáticas até ao primeiro acidente cardiovascular: as causas como a hipertensão, o colesterol elevado são assassinos silenciosos que não enviam alertas. Por isso mesmo, deve fazer-se um controlo regular do colesterol. Cerca de 50% dos meus doentes nunca tinham tido um problema cardiovascular mas existiam fatores de risco no seu estilo de vida.

11. Já disse uma vez que a hipertensão arterial é um “assassino silencioso”. De que formas se pode evitar ser atingido por ela?
A moderação e o equilíbrio na alimentação são muito importantes. O exercício físico diário também.
O que se deve evitar tal como na alimentação é privar o corpo de exercício ao longo da semana e depois praticar desporto intensivo ao fim de semana. O esforço para o organismo e em particular para o coração é demasiado. O equilíbrio e a rotina são essenciais. Para além destes cuidados deve fazer-se um rastreio frequente dos níveis de colesterol e tensão arterial. Estes hábitos devem ser uma prioridade das famílias e não apenas uma preocupação de grupos de risco.

Prof. Manuel Carrageta: conselhos de bom coração